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Sete dias por semana sem medo da notícia!
Raphael Barros
Colunista
Burla

Parei de tomar remédio. Vou passar essa doença que acabará com as farmácias.

Carla Macedo ou fome de mamãe

Barriga redonda, grande, lustrosa. Carla sente desejo de comer as coisas mais estranhas, algumas até perigosas: feijão com camarão, banana com macarrão, leite com manga, café com água gelada. Ela sai andando lentamente pela rua, vendo crianças que um dia irá parir. Carla chega perto de uma menina de cinco anos — se muito — e pede um pouco de pipoca. A garota dá sem problema, só franze o rosto quando Carla mete a mão no saco para pegar o segundo bocado. Sai com a boca cheia, balbuciando algo que não dá para entender. A criança pensa que existe muita gente mal educada no mundo, mas que é preciso ter paciência. “Pelo menos é o que mamãe sempre diz”, resigna-se a garotinha, com o rosto, agora, desanuviado.

Carla continua o trajeto, sempre cheia de desejos, disposta a saciá-los sem nenhum peso na consciência. Ao passar por crianças solitárias ou em grupo, trata logo de mexer com elas, tentando intuir como seria a reação de suas filhas nessas situações. Pega uma bala, estoura um balão, chuta uma bola bem para longe, coloca o pé para que alguma das traquinas caia. Está disposta a ir às últimas consequências.

Em um parquinho na praça, pega o pirulito de uma garotinha desprotegida. A coitada começa a chorar. “Vem cá, minha filha, você está pensando que é quem? Que está mexendo com filha de maria-niguém? Ela tem mãe, viu? E eu vi o que você fez. Desse tamanhão, com esse barrigão, implicando com uma criança! Se enxerga, mulher”, diz a mãe da menina que teve o pirulito roubado por Carla.

A trituradora de comida, a esgalamida, a glutona, a comilona, dá de ombros, joga o pirulito no chão e segue caminho. Nem parece estar com a barriga já pela boca. A respiração ofegante mostra isso, mas ela segue adiante, quer chegar a algum lugar. Enquanto não atraca no derradeiro destino, segue implicando com meninas das mais diferentes idades, classes sociais — acompanhadas ou não de adultos.

As pessoas recebem os descalabros de Carla com espanto, com descrença, com uma negação tremenda que as deixam imóveis, sem ação. Em nenhum momento a Polícia é chamada, sequer um guarda municipal. Nada, necas, coisa nenhuma. Carla reina. Parece filha única em ataque de carência, ferindo todos os familiares mais próximos. Insuportável, intragável, ligeiramente paranoica.

Carla segue indiferente, pratica mais alguns desatinos. Chega a uma loja. “Hospital de brinquedos”, lê-se. Ela entra sem sutileza e interpela a balconista: “Vim pegar minha filha”. A balconista sai e volta com uma meninazinha de seis meses, no máximo, nos braços. Bico na boca, macacãozinho rosa, silenciosa.

Carla puxa a bebezinha dos braços da balconista, coloca nos seus, deixa a loja batendo a porta: emburrada, bronca, estúpida. Faz o caminho de volta para casa mais serena. Abre a porta, não tem ninguém.

Carla despe a bebezinha, cheira a barriga fofinha e vai futucando o umbigo daquela coisinha até fazer um buraco. Primeiro coloca uma bonequinha pequena que, ao passar, alarga o rombo. E assim coloca uma maior, outra um pouco maior, outra maior ainda, como se fosse uma bonequinha russa: matriosca.

Quanto mais bonecas de tamanhos variados coloca dentro da bebê, mais ela incha. Até que a barriga se desfaz, descostura, saindo tudo o que estava dentro, com direito às estopas de preenchimento. Carla rasga pela quarta vez, em menos de um mês, a sua boneca “Meu Bebê”, da Estrela .

Carla Macedo tem dez anos e sonha que sua filha seja mãe de 11 gêmeos, igual à indiana do WhatsApp. Ela não sabe que a notícia é falsa. Carla é filha única e está muito acima do peso.

A primeira noite de um H

Excitado, em frente ao espelho, perguntava-se o que faria com aquela haste. Broxou. h.

Caneta sem tinta

Tinha o sangue azul, mas instável, às vezes nobre, às vezes vulgar, dependendo de quem a usasse. Uma caneta esferográfica azul. De tanto escrever, ficou sem tinta. É da marca BIC, aquela com o furinho no corpo, em que se encaixa a ponta da lapiseira e se faz uma hélice. “Isso é besteira”, diria enquanto tinha tinta. Naquela época, era dada a pensamentos profundos, sérios. Nada de frivolidades.

Mas, agora, que está sem tinta, sente-se mais leve, mais diáfana — transparente até. Para não ficar sem ter o que fazer, começou a pensar. Acredita que isso é uma forma de escrever em silêncio, de escrever o silêncio. Não precisa mais ser empunhada, não precisa ser mais esfregada, tratada com descaso. Não precisa mais ser meio. Ela é fim, finalmente. Fim em si. Sem cobrança, sem tensão, sem falta de criatividade — não dela, mas do escriba.

Ela está plena, mesmo vazia. Consegue entender o que não entendia, porque lhe faltava reflexão. Tudo era ação, tudo era para ontem. Chegava determinado momento em que nem sabia mais o que fazia, agia no automático.

Começou a refletir mais quando passou da meia vida, quando mais da metade de seu sangue-mente-tripas-coração-e-o-escambau já tinha escorrido papel afora. Sabia que não demoraria muito para parar de ser usada. Que alívio, que angústia. Teria de se adaptar a uma nova vida, a um novo modo de ver a vida, não mais de cara para o branco, para o nada, para o incriado. Não seria mais colocada na boca, nem no nariz, nem na orelha. Não seria mais equilibrada entre o lábio superior e a parte de baixo do nariz, num beicinho cômico do humano. Não ficaria mais dentro do bolso refletindo se suicidava ou não. Infelizmente, muitas de suas conhecidas e amigas puseram fim à vida. “Ato impensado, puro impulso”, lamentava à época quando dos estouros das canetas dentro dos bolsos. Era uma sujeira difícil de ver.

Agora, estava leve, mas trancada numa gaveta, esquecida lá no fundo. “Isso dá um pouco de angústia. Na verdade, me angustia muito, não serei hipócrita, não tenho mais idade para isso”, pensava com seu furo. Não tinha mais tampa de cima, nem a rolhinha de baixo. Ela tinha saudade de ser usada, de se sentir útil para si, para alguém. Sempre foi trabalhadora, até altruísta demais. As amigas diziam que ela pensava primeiro nos outros, depois nela.

A gaveta era outro momento: chato, nostálgico, arrastado. Só não acreditava que infinito, porque não cria na eternidade. Muitas vezes havia visto canetas próximas e até humanos sendo destruídos sem a mínima explicação.

Enquanto era deixada ali, melhor mesmo, dizia para si, era pensar, tentar dar sentido para aquilo tudo. Quanto escreveu, borrou, rodou por aí? Quanto se sentiu importante, sabida, influente – em muitos casos dissimulada – sem ser?

“Então era isso, refletir é criar sentido para as coisas. Por isso que quem me usava era tão angustiado, desligado, com a cabeça em todo lugar e, também, em nenhum. Coitados. E eu adorava brincar com eles, falhar bem na hora daquela ideia rápida. Ser sacudida, xingada, me contendo para não me borrar de rir. E quando resolvia ser gaga? Repetia sílabas, palavras a esmo. Ou comia letras. Ou mesmo – me perdoem, sinceramente, me perdoem, brincadeira tem hora – trocava letras, para aqueles empertigados saberem que nem só de ideias se faz um bom texto. A cara deles quando viam uma palavra escrita errada, pondo em xeque seu conhecimento da língua, era impagável. Para se provarem, escreviam tudo de novo, muitas vezes novos textos. E com isso, lá se ia mais e mais tinta. Fui burra, encurtei a vida com essas brincadeiras. Estou aqui vazia, cheia de ideias, mas não consigo materializá-las. Se eu tivesse cheia de tinta, iria conseguir ou continuaria só fazendo coisa para os outros? Provavelmente, só para os outros”, pensou num jorro só a caneta sem tinta.

Translúcida, inerte, jogada insepulta no fundo da gaveta. Quem a visse assim, diria que a caneta sem tinta estava morta.

Incredible sound system

Perdi o controle remoto do coração, o volume está bem alto. Os vizinhos não sabem se chamam o síndico ou se choram ao meu lado.

Aquele toque

Continuo acreditando que minha função por aqui é deixar mensagens edificantes para os leitores. Por isso, passei a semana pensando em conselhos, aqueles toques. Não que eu seja um mentor, um guru de costumes. Sou apenas um homem perplexo com a falta de reflexão. Em mim mesmo, claro.

Aquele toque #01

Sempre pense de antemão. Melhor prevenir do que titubear.

Aquele toque #02

Prantos e desmaios não combinam com funeral. Mais vale risos nervosos, tremores e noites em claro. Chique é ser senhor da dor.

Aquele toque #03

Só estale os dedos se o ronco da barriga não for o suficiente.

Aquele toque #04

Desista imediatamente de relacionamento que não tenha como linha mestra o amor ao call center.

Aquele toque #05

Em caso de filhos, tenha sempre em mãos peidos armados e arrotos no gatilho. Duvido a relação não evoluir para a infância.

Aquele toque #06

Contra asco, casco. Também é bom ser cavalo.

Aquele toque #07

Economizar um centavo por dia, se tanto. Dica de quem vem falindo ano após ano.

Inventar de novo o amor

Estou numa fase bossa nova. Volta e meia ela reaparece. Quando acontece, emperro na rua Nascimento Silva, 107. Fico observando a Elizete aprendendo as canções do “Canção do Amor Demais”. Espero ansiosamente o final, quando Vinicius fala a Tom que é preciso acabar com a tristeza e inventar de novo o amor.

Talvez esse seja o melhor conselho que um amigo dê a outro. Ele é amplo, porque existem inúmeras formas de desenvolvê-lo. Por exemplo, escutar música, ler livro — de ficção, sempre –, contar piada, preparar comida, cortar as unhas, amar uma mulher.

Acredito, sem muita convicção, que o amor está em qualquer coisa que nos torne menos chatos. Daí abrir-se um leque quase inesgotável de opções, claro, sempre envolvendo música, livro de ficção, piada, comida, cortador de unhas e mulher. Um coisa puxa a outra, e acabamos deitados, suspirando, com sorriso de canto de boca — imaginem o alívio de se livrar de uma unha encravada.

Um amigo me confessou que a melhor maneira de inventar o amor é se olhar no espelho, em manhã pós-festa, e ter a certeza de que o corpo ainda funciona. Ele argumenta que é a maior prova de Deus e de Sua infinita compaixão com os pecadores. Não lhe tiro a razão, o exagero é uma das opções que nos é apresentada para inventar de novo o amor.

No fundo, aquele sentimento de plenitude nada mais é que o exagero. Por exemplo, quando ouvimos uma música e, exageradamente, dizemos que é a melhor coisa que já foi feita. Vale também para livro de ficção, piada, comida, cortador de unhas (afiado e preciso, amigo unha e carne do bisturi) e mulher. Passado um tempo, a sensação vai se arrefecendo. É exatamente neste momento que é preciso inventar de novo o amor: o amor dentro do amor.

Ou, melhor ainda, o amor dentro do amor dentro amor, com o mesmo livro de ficção, cortador de unhas, a mesma piada, comida, mulher. É assim que me sinto quando chego à rua Nascimento Silva, 107, escutando admirado a Elizete.

Frases de efeito

Porque tem hora que a gente só quer causar uma boa impressão nos cérebros dos amigos.

* Depois do sétimo dia, na pindaíba, Deus criou o cartão de crédito e disse: faça-se a dívida. ‪

* Com o orçamento comprometido, finalmente pôde pagar pra ver.

* Toda tomada que se preze tem dois polos: o que te deixa numa fria (presunto) e o que te deixa tostado (isso, quando o cheiro é de queimado).

* Tenho um dicionário com mais de 200 mil palavras, e uma única gravura: está na letra G.

* Ave de rapina é aquela raposa velha num jatinho.

Texto inédito

Mas estas palavras já não estavam todas no dicionário?

Esses animais

Escrevi, dia desses, uma série de textos curtos chamada “Esses animais”. Não sou Esopo, o mestre da fábula, mas dou meus coices. Abaixo, uma seleção dessas miniaturas.

Esses animais #14
Ser porco capitalista não é nada mau. Tem muito chiqueiro melhor que meu palácio real.

Esses animais #13
O bode bebê: bé-bé.

Esses animais #12
Um puro filme de terror, a aranha que tinha teias no interior.

Esses animais #10
Na hora de trocar de roupa, a cobra não tem escolha.

Esses animais #07
A lagartixa é um bicho assombrado, com cabeça movediça e rabo assustado.

Esses animais #02
A menor coisa mais rápida que existe é o coito de um nano coelho.

Últimas palavras

Antes de morrer ou mesmo no último suspiro, é válido deixar algumas poucas palavras para as pessoas que vão continuar por aqui.

Compartilho algumas opções de frases para familiares e amigos discutirem qual colocar em minha lápide — sem brigas, por favor.

Caso falte chão para me enterrar e local para fixar as letras, peço que tudo seja jogado ao alto.

Maldição

Na pior das hipóteses, que essas frases lapidares se tornem piadas fúnebres.

Lápide #01

Silêncio, tenho o sono leve. ‪

Lápide #02

Como sou sensível. O peso só tinha uma tonelada, e me desmanchei todo.

Lápide #03

Era poeta. Teve ataque de suspiro.

Lápide #04

Deixei toda a esperança a vós que olhais.

Lápide #05

Eu pensava que tinha claustrofobia.

Lápide #06

Que nem coração de mãe.

Lápide #07

E vocês chamam isso de morte?

Ecce homo

Quando o homem embebeda-se e acorda no outro dia com medo de si, é hora de ir mais devagar. Nunca se deve fazer surpresa em casa trancada por pesada porta.

* Ecce homo é uma frase em latim que significa “Eis o homem”.

Eles precisam escutar

A sala estava lotada. A plateia ansiosa vendo os médiuns amuados na mesa branca. O pipoqueiro, na porta de entrada, gritava: “Aqui só não compra quem já morreu”. Ele tinha presença de espírito.

Deus, Ciência e Fábio Jr

Estava eu tomando banho com minha filha, quando surgiu a temida pergunta: “Pai, como o mundo surgiu”? A resposta foi rápida, para não mostrar minha inaptidão em responder questionamentos profundos. “Existem três teorias. 1) O mundo surgiu por vontade de Deus; 2) Por uma explosão, que a Ciência chama de Big Bang; 3) Com o nascimento do Fábio Jr”.

Ela não se interessou pelas duas primeiras hipóteses. Queria saber quem era Fábio Jr. Disse, sem medo de errar, que é o cara mais sensível e perseverante que conheço. Acredito que Deus seja assim. Também creio que o Big Bang não tenha sido diferente.

Ele – o Princípio, o Meio e o Fim – tem um coração e tanto e uma perseverança maior ainda. Ele – Aquele que tudo fez – só pode ser um Ser absoluto, para nos criar e suportar desde então.

O Big Bang também. Não deve ter sido fácil juntar toda aquela energia para dar um pipoco e, do nada, ir criando, aos poucos, tudo o que a gente conhece hoje. Da primeira vez, certamente, deve ter sido um traque ridículo. Mas foi no trabalho árduo e persistente que, num belo dia – é só expressão, não existia dia – um estouro danado deixou muitos ouvidos siderais magoados e começou, grão a grão, tal qual galinha, a criar o maior espetáculo da Terra – e a própria Terra e o restante dos planetas.

Agora, o Fábio Jr é uma coisa inexplicável, ele canta “Pai” há 40 anos e, toda vez, é uma criação, uma nova música, um Big Bang, um fiat lux que não se acaba. Em 1978, o cantor tinha 25 anos, quando deu ao público a obra mais pungente que um filho pode criar. A.P (antes de Pai), Fábio juntou forças, com sensibilidade e determinação para, na hora certa, explodir numa cosmogonia, numa teologia perfeita.

Expliquei à minha filha que, mesmo confuso, o mundo não surgiu em 1978, mas em 1953, com o nascimento dele, daquele que compôs “Pai”. Jr, se assim podemos chamar homem tão grande com apenas duas letras, deu um novo significado à vida, criou o mundo dentro do mundo – é preciso muito amor para isso.

– Se ao deitar — disse à pequena que estava debaixo do chuveiro –, você ouvir um trecho sequer dessa música, o mais simples que seja, entenderá o porquê de as igrejas passarem por uma crise tremenda e os shows de Fábio Jr continuarem abarrotados de gente, mesmo tendo como carro chefe uma música que, há 40 anos, repete o mesmo estribilho.

Ela jogou água no meu rosto, começou a rir e disse: “Pai, não entendi nada”. Eu comecei a chorar, eu não sou o Fábio Jr. Criei o caos quando, simplesmente, poderia dar apenas o play. Mas, segundos depois, minha filha resolveu o problema: “Pai, rápido, lava o rosto, entrou sabão no seu olho”.

Não saberia explicar o que senti, nem usando Deus, Ciência ou Fábio Jr.

Felipe, sobe para comer paçoca

Quando estou em casa, não gosto muito de sair da cama. Mas por uma força que vou ficar devendo explicação, às vezes, sou levado à janela, com ou sem vontade de fumar, só para ficar olhando o tempo mesmo.

Das coisas boas dessas saídas raras da cama, ouvi uma mãe gritando da janela do apartamento para o filho que estava brincando na quadra do prédio: “Felipe, sobe para comer paçoca”. Isso devia ser umas 19h.  Ou seja, quando o garoto atendesse a mãe, certamente, seria para jantar. E a comida eu já sabia qual era.

Lembro que, quando criança, minha mãe também gritava por mim, mandando que eu subisse. Elas são sempre assim. Se estamos em cima, querem que deixemos de perturbar e brinquemos um pouco com os amigos. Se embaixo, gritam nos chamando. Doidivanas, loucas maravilhosas, ninguém as entende, MAS as compreende muito bem.

Eu gosto de paçoca, o Felipe também. “Tá bom, mãe, tô subindo”, disse em resposta sem fio, em alto e bom som. Se ele não gostasse da iguaria, certamente, soltaria um “subo já” – clássico dribla mãe.

A minha querida mamãe sabe que odeio frango. Caso soltasse: “Sobe, Raphael, tem galeto”, eu, com toda dor no coração, diria “subo já”. Quando chegasse em casa, daria uma desculpa qualquer, comeria uma bolacha que fosse e iria dormir com fome, mas satisfeito por não ter traçado o frango.

Felipe subiu na hora, não ouvi mais a mãe chamá-lo. Pela rapidez e empolgação do grito, a paçoca devia ser daquelas feitas no dia, com a carne de panela que sobrou do almoço, batida no liquidificador com cebola roxa, um pouco de cheiro verde e farinha branca. Ela fica úmida. Foi um jantar e tanto. Vai ver não tinha nem acompanhamento – e nem precisava.

Sou mais para calado do que falastrão. Mas quando ouvi “Felipe, sobe para comer paçoca”, deu uma vontade danada de gritar: “Sobe não, Felipe, fica brincando na quadra mesmo, deixa que eu assumo o compromisso”.

Alguém já ouviu falar sobre haicai?

O haicai é um poeminha de origem japonesa, que se distingue por ter três versos. Eu, aqui, vez por outra, postarei uns estalos que escrevo, com um toque oriental lá longe.

Originalmente, os haicais não têm título, nem rima. Quando chegou ao Brasil, principalmente com Guilherme de Almeida, a estrutura pegou uma cor que é só nossa.

Durante algum tempo, usei título e rima nos meus. Atualmente, deixei título de lado e continuo com as rimas. Mas nem sempre.

 

Pergunta solar.
Esse brancão que vejo,
é só de olhar?

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continue a contar
os grãos de areia
e as gotas do mar

 

4 pequenos textos, 4 grandes espantos

Abaixo, você confere o poder da reflexão sem compromisso.

 

Dia de praia

Olhei para o espelho e disse oi. Ele me respondeu.

– Oi também, sumido.

Dei-me conta de que não era mais um vampiro.

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O diálogo

Um estudante perguntou para outro na fila do teatro. Os dois estavam matando aula.

– E Medeia tem acento?
– Não.
– Tem sim – disse o funcionário da bilheteria.

O bate-boca durou até o início da tragédia.

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Pulada de cerca

– Escuta, Coração, o Bumbo é seu meio-irmão.

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Pizza, filosofia em oito pedaços

Azeitona é frutinha ambivalente. Ataca o sorriso, começando pelo dente.

Sobre a escrita

A escrita salva, é o que penso. Pro resto, resta o lenço.

02) A escrita é a agente da condicional. Da mesma forma que o mamão e o cigarro para os constipados.

03) O ventilador e o nariz escrevem sim: o primeiro com poeira, o segundo com atchim.

04) “ ” (Ghostwriter)

05) Eu não escrevo, eu falo. Teclou o taquígrafo.

06) O SMS é escrita tacanha. Ass. Saldanha.

07) A escrita ensina o seu nome. Foi assim com Austregésilo de Athayde.

08) A escrita é um bisturi, escreveu o Pitanguy.

09) A escrita existe para se falar calado.

10) A escrita é o alfabeto em sonho.

11) Escrota é a escrita nem sempre marota.

12) O rabisco é a escrita com a trave e o cisco.

13) O epitáfio é a certeza de que a escrita não me deixa em paz.

14) O suicida é sempre melhor entendido quando escreve.

15) O ponto final é a escrita depois do gozo.

16) Escrever dá apetite: queijo, pimenta e salsa. Saca, acepipe.

17) A gramática é igual aos avós da escrita. A sintaxe, ao pai. A metáfora, à mãe. A ortografia, ao irmão. A caligrafia, à irmã. A semântica, àquele amigo que curte Pink Floyd. A escrita mesmo não parece com nada.

18) A tosse é garrancho que vem do pulmão.

19) O delete é o abortivo da escrita.

20) O lixeiro é o inferno do escritor, o purgatório da escrita e o céu dos olhos incautos.

Os encantos de Mundinha

As pessoas mais interessantes são as que sabem cozinhar, seja texto, conversa ou comida. Com a palavra escrita é preciso boa mão, não exagerar nos adjetivos, advérbios, nem nos substantivos. É inventar com o que se tem o que se quer, evitando ao máximo sair para comprar coisas no dicionário ou em citações complicadas; o resultado fica mais caseiro, mais intimista. Ao escrever, não vá compor demais, dica de Bashô, amigo antigo.

A conversa requer o mesmo cuidado, deve ser preparada na voz baixa, com trocadilho insuspeito e uma pitada de maledicência. Fala séria demais é igual à comida muito salgada, sente-se do começo ao fim. Conversa boa não se percebe, quando se nota, a moderação já foi às favas há muito tempo. Não desmereço as que são pesadas, mas essas vão de acordo com o estômago do cliente. Há dias em que ele quer apenas um caldo de caridade; noutros, uma bela rabada.

E a Mundinha? Confesso que não a conheço. Gostaria, mesmo. Encontrá-la seria realizar um grande sonho; observar suas mãos, o maneio dos dedos, o gesto perfeito. Faz tempo que ouço falar dela, desde adolescente. A história é a mesma, só mudam os pratos: mão de vaca, creme de frango, paçoca, vatapá, cuscuz marroquino e, pasmem, até a incompreendida tripa de porco. Mundinha não tem dó, e eu sofro de ouvido.

O que não consigo entender é o porquê da reclusão dessa mulher. Tentei pelas vias menos sutis entrar em contato com ela: suborno, investigação e choro; é impossível. Mundinha é uma ordem iniciática, apenas os merecedores têm o privilégio de sua presença. Os que fazem parte do grupo não revelam o esconderijo nem por tortura. Os que já participaram de um encontro, mas não foram aceitos, não abrem o bico com medo de represália por parte dos mundicos, os seguidores da cozinheira.

Reza a lenda, ninguém sabe como a informação vazou, que para ser membro do círculo hermético da boa mesa uma única prova precisa ser cumprida, conhecida como “O dorminhoco”. Depois de farto banquete, com direito a um digestivo licor de jenipapo, Mundinha pede para que o iniciante se deite em uma rede branca. Ela vai à cozinha e, com rosto indecifrável, volta com um pedaço de pudim num pratinho vermelho. Com voz suave, pede para que o manjar seja apreciado. O neófito, despreparado, come e dorme. Ao acordar, é convidado a se retirar, sem data de retorno. Um amigo, que foi e dormiu, revelou o segredo da iniciação: “Mundinha exige que o prazer seja consciente”.

Poesia, poemas e poetas

Em 2012, dei uma entrevista por e-mail à jornalista Dal Pires para uma matéria no Diário do Nordeste sobre novos escritores cearenses. Na época, tinha escrito o livro de poemas “Como um estalo”, o primeiro de uma trilogia de textos curtos.

Dal Pires – No site do seu livro (ainda existia o site), você brinca que “Como um estalo” demorou 25 anos para ser escrito. Qual a sua relação com a poesia?

Raphael B. Alves – Meu pai é poeta, tem um livro chamado “Coisas livres”, fortemente influenciado pela Guerra Fria e a bomba atômica. Foi a primeira relação que eu tive com poesia, consciente. Queria fazer alguma coisa parecida, mas não tinha vivência suficiente, então copiava os poemas para mim e dizia que eram meus. Depois de um tempo, fui vendo que os poemas não eram meus mesmo e que eu não sabia fazer aquilo, deixei de lado. Quando eu tinha 14 anos, conheci a poesia do Manuel Bandeira, um poema chamado Haicai Tirado de Uma Falsa Lira de Gonzaga (Quis gravar “Amor” / No tronco de um velho freixo: / “Marilia” escrevi.). Aí li a obra completa dele e percebi que dava para fazer coisa parecida. Meus poemas nasceram do Bandeira, mas minha poesia veio de berço. Quando estava com 25 anos, casado com a Patrícia, ela viu uns poemas que eu escrevia e publicava em um blog chamado Como um Estalo, onde eu escrevia prosa curta e poemas curtos. Eu já tinha desativado o blog, mas tinha impresso tudo em um monte de folha A4 e guardado em uma pasta. Ela viu, gostou e quis publicar. Eu não via mais aqueles poemas como meus, porque fazia tempo que os tinha escrito, já via as coisas de um outro jeito. Mas ela agilizou tudo e me mostrou o livro pronto, com os poemas, capa e ilustrações. Botou o livro para concorrer edital e deu certo.

Dal Pires – Antes de publicar, onde você fazia os registros poéticos? Mudou alguma coisa na sua relação com a poesia, ter um livro publicado?

RBA – Eu tinha um blog chamado Como um Estalo, que tinha como epígrafe um conselho do Italo Calvino: “Quanto mais tempo economizamos, mais tempo podemos perder”. Publicava tudo que eu conseguisse dizer com poucas palavras. Foi uma fase que eu estava fissurado em concisão, estudava isso à exaustão, tentando escrever tudo com o mínimo de palavras. Aquela historinha do Millôr Fernandes, de não escrever com 11 palavras o que pode ser escrito com 10, a não ser que você seja americano e ganhe por palavra. Mas o site era bem feinho, ninguém lia, só uns amigos. Com o livro tudo ficou bonito, mas só os mesmos amigos continuaram lendo.

Dal Pires – Alguns poetas comentam, até os mais consagrados, que poesia não vende. Como você vê isso?

RBA – Poesia vende, porque ela está em tudo, num carro, numa casa, num bolo etc. O que não vende muito é poema, mas quem disse que ele quer virar produto? Ele é vendido à revelia. Amagrana é o anagrama capitalista.

Dal Pires – Você consegue imaginar alguma alternativa para tornar a poesia mais acessível desde cedo, durante a formação de um leitor?

RBA – Mais amor em casa. A criança é um poeta nato. Qualquer poema a criança acha legal, mesmo não entendendo, porque está no mesmo nível de construção semântica que ela tem em mente. Ou seja, nada faz muito sentido, ela procura encontrar um sentido pelo binômio erro-acerto. Quando algo causa estranhamento aos pais, ela acertou, caso não, ela errou. Poesia não é nada além disso. Então um conselho aos pais: parede pode ser um amigo, do mesmo jeito que a colher pode ser um objeto de tirar sopa da boca. Cada vez que a gente diz que colher só serve para botar sopa na boca, a gente mata um poeta.

Dal Pires – Em que momento o poeta entende que é hora de mostrar o que escreve?

RBA – Quando a esposa manda ele mostrar. Ou quando ele confia os poemas a um amigo e pede para que os publique postumamente. Certamente o amigo fará o contrário.

Dal Pires – O que significa ser poeta no Ceará? O que da cidade onde vive/convive você coloca no que escreve?

RBA – Ser poeta no Ceará é o mesmo que ser poeta em qualquer outra cidade do país ou do mundo. É um pessoal muito parecido, cheio de onda. Minha poesia só nasceu porque eu estava com a barriga cheia, tinha amigos por perto e sabia quase todas as histórias que eles contavam de cor. Para se fazer poesia é preciso confiança.

Dal Pires – De fora, a sensação é que os escritores locais se leem pouco ou nem se leem. Você concorda? Costuma trocar experiências literárias com algum outro artista?

RBA – Os poetas se leem. O difícil é que novas publicações de novos poetas cheguem às mãos de velhos poetas. Mas entre poetas novos sempre acontecem trocas de experiências. Tem gente nova muito boa: Uirá dos Reis, Ayla Andrade, Cláudio Portella e Alexandre de Lima Sousa.

Dal Pires – O seu livro foi publicado por meio de um edital. Qual a importância desse tipo de incentivo? O recurso é suficiente?

RBA – Para quem não tem dinheiro para publicar, nem editora, é uma boa solução. O recurso foi suficiente, deu para fazer um livro com bom acabamento, não deixa a desejar aos publicados por grandes editoras. O problema de edital é você não andar com as próprias pernas, é bom ganhar de vez em quando, mas sempre deve ser chato, porque você descobre a fórmula e não tenta fazer uma coisa diferente. O que eu sugeriria para o pessoal que desenvolve os editais é pensar em uma forma de distribuição dos livros. Na maioria dos casos, bons autores não são lidos porque os livros não chegam à estantes das livrarias. Quem já tentou colocar livro na prateleira de alguma boa livraria sabe como a burocracia e os custos fazem com que eles não fiquem lá.

Dal Pires – E pra finalizar, quero que você me contextualize sobre o que está fazendo atualmente, onde está morando e como quer ser identificado.

RBA – Sou jornalista, nasci, cresci e me desiludi – e vi que a vida é assim mesmo – em Fortaleza. Moro no Crato (não mais) e trabalho em Juazeiro, no Jornal do Cariri (não mais, mas continuo no mesmo grupo). Escrevi o “Como um estalo”, que por falta de vergonha na cara ainda não foi lançado em Fortaleza (nunca foi lançado em Fortaleza), e tenho pronto um segundo livro de poemas chamado “Digital e cheio de dedos”. Os dois são de poemas curtos. Não sei quando o segundo será lançado, espero que logo. A ideia é fazer uma trilogia de poemas curtos, cada livro como se fosse um verso, no final teríamos um haicai em três tomos. O último da trilogia comecei a escrever, mas sem previsão de término.

Silêncio

O mundo está repleto de tudo, só não de silêncio — foi o que eu disse na crônica passada. Prometi voltar ao tema. Cumpro aqui a palavra. O mais engraçado disso tudo é que vou tratar de um assunto que era melhor ficar calado. Dessas contradições, a vida está repleta, e temos de encará-las sem medo, sob pena de começarmos a perder aos poucos a voz interna. Silêncio é uma coisa, mutismo é outra.

Silêncio é saber que mesmo com todas as ideias, informações e impropérios que existem, optamos por não usá-los. É isso que acontece quando engolimos sapo, resolvemos deixar para lá ou decidimos contar até dez. De forma bem direta, silêncio é tomada de decisão; mutismo é simplesmente imposição.

Entre dizer e não dizer, existe um milhão de forças (internas e externas). As internas são aquelas que, depois de assimiladas, somos mais influenciados a usá-las como balizas. Depende sempre da formação que tivemos ou subvertemos. As externas são impostas mesmo, é o poder de fato — bruto, sem dó nem piedade. Ou faz ou faz. Não tem discussão.

Silêncio é quando a pessoa amada pergunta se está falando demais e nós damos apenas um sorriso. O amor e a educação não permitem que firamos nossas esposas, nossos maridos. É tudo voluntário. O mutismo não. Mesmo que queiramos falar, não podemos, como no momento em que uma arma está apontada em nossa cabeça e o bandido pede para que não demos um pio.

Silêncio é bom, mutismo não. Quando um político fala besteira, ele podia ter ficado calado, mas optou por soltar mais uma das suas. Diriam os mais sábios que a palavra é prata, o silêncio é ouro. Ganha o eleitor mais atento, perde a legenda mais sebenta.

Quando uma mulher ou um homem são violentados sexualmente e ficam congelados por não saber como agir em situação tão irracional, é mutismo.

Mesmo que o mundo não esteja repleto de silêncio – seria bom –, não é isso que importa. É urgente combater a falta de voz que vai além de um problema físico. É uma questão, em última instância, de tato. E só sabe quem sente o peso da mão sobre si.

A histeria da fake news

Fake news é notícia falsa em inglês. Eu, que reporto e leio notícias, observo a propagação dessa velha ideia como sendo algo novo. Sempre existiu notícia falsa, sempre existirá. Como sempre vai haver matéria bem apurado e mal apurada. Não diferente, leitores e leitores. O que mudou foi a escala. O mundo está repleto de tudo, só não de silêncio. Mas essa questão fica para outro texto.

Na histeria da fake news, tudo é falso em ano eleitoral. Tudo que não favoreça o candidato. Se a Folha informa que Bolsonaro juntamente com os filhos ficaram milionários basicamente com a política: é falso. Se Ciro aparece em uma lista de propina da Odebrecht com o apelido “Sardinha”, mesmo a matéria informando que não houve comprovação de repasses: é falso.

Só é verdadeiro, para a militância mais afoita, o que beneficia o candidato, seja qual for a coloração partidária. Autocrítica e a coragem de assumir os erros e deslizes não existem. E são justamente essas pessoas que infestam as redes sociais dos veículos de comunicação: jornal impresso, rádio, TV ou portal de notícia.

Militância em Ambientes Virtuais (MAV) é como o PT chama esse pessoal. Em outros partidos, deve ser semelhante. Basta entrar nas redes sociais de qualquer veículo de comunicação e ler os comentários nas matérias negativas sobre candidatos que concorrem à Presidência da República, Governo, Senado, Câmara dos Deputados ou Assembleia. Lá estão aqueles que são pagos para denegrir a empresa e exaltar o chefe político.

Eles não querem saber se existem provas mostrando que seus queridinhos estão envolvidos nas mais cabeludas irregularidades. Quanto maior o pepino, maior a defesa. Vão para cima sem pena, como aqueles fanáticos de seita apocalíptica, que acreditam piamente no fim do mundo em determinada data, mas o Armagedom não vem. Depois disso, aí é que eles passam a exaltar mais ainda o grupo.

Se o fim do mundo não pintou, é porque eles não estavam preparados. Então é preciso mais recato, mais oração e mais penitência. A mesma coisa acontece com a militância afoita. Apareceu ilegalidade do candidato imaculado? É porque faltou defesa, mostrar quem ele realmente é. Não a caricatura pela qual a matéria quer que ele fique conhecido.

O Apocalipse está para a fake news como os fanáticos estão para as MAVs. Quando o fim do mundo e as notícias falsas estiverem cara a cara com eles, não vão conseguir perceber. Fantasiaram tanto, que perderam o senso da realidade.

Virtuoso silêncio do falastrão

Tem gente que é boa de lábia. Justamente por isso, morre pela boca. Ciro Gomes é um exemplo clássico. Todos os seus adversários sabem. Lula mesmo – que nem é um antagonista dos mais ferrenhos –, no ano passado, por duas vezes, fez questão de lembrá-lo disso. Não transcrevo aqui as alfinetadas ipsis litteris, mas de lembrança: 1) Candidato tilápia; 2) Nem toda besteira que a gente pensa, a gente diz. As duas deixas do petista mostram por que ele chegou ao Planalto, e Ciro não.

Em matéria da Folha, o FG tem o nome ligado ao apelido “Sardinha” em uma lista de pagamento de propina da Odebrecht. O jornal deixou claro que não há informações sobre repasses ao codinome. Se recebeu ou não, a questão aqui é sem importância. O que vale mesmo é a alcunha “Sardinha”. Caricatura muito boa. Por sinal, a empreiteira é competente em dar nome aos bois.

Sardinha é peixe pequeno, como a campanha do presidenciável do PDT, que ainda não decolou. Ela é levada para o fundo do mar na rede de arrasto que é o PT, PSDB e MDB. E Ciro não ajuda muito para que a danada engrene. Se a Folha o ataca, ele dá uma resposta chocha, sem firmeza e convicção. A única coisa que faz é tentar intimidar com processo quem quer que propague a informação enlatada.

Ciro já foi melhor de refutação, já foi “more presidential”. É tanto que, por não se defender a contento do apelido “Sardinha”, o peixinho entrou na cabeça de todo mundo e faz a festa nas redes sociais. Basta conferir os comentários nas postagens mais recentes no Facebook do FG. Um verdadeiro Festival da Sardinha.

Quando é para falar, Ciro fica calado. Na hora de fechar o bico, dispara sua metralhadora cheia de mágoas. No caso da lista da Odebrecht, optou pelo silêncio para se mostrar superior. Quem é falastrão, peca ao se calar diante de acusações. Parece que não tem argumentos para rebater o que foi dito.

Um candidato para chegar ao Planalto precisa ter duas ferramentas afiadíssimas sempre preparadas: o timing e uma contradição para chamar de sua. Nesta, ele é tubarão. Naquela, sardinha.

A tediosa lei da sobrevivência

Quatro entre três perguntas feitas a políticos são sobre alianças nas Eleições 2018. Eles desconversam, fazem balanço da gestão, seja no Executivo ou Legislativo, e terminam desejando um próspero ano novo. “Acordão, união etc. só quando chegar mais próximo, porque agora não é hora para isso, que ainda existe muito a ser feito até o momento do eleitor escolher na urna quem sobe e quem cai”, dizem.

O discurso é padrão, mas é mentira. Alianças e toda sorte de bijuterias são negociadas neste finzinho de 2017.

Eles pensam que nos enganam, querem sobreviver em 2018. Precisam ver como as coisas vão se desenrolar até lá, mas já têm planos A, B, C, D, E, FG… O que desejam mesmo é o poder, independente de coerência, ideologia ou palavras dadas. Dinheiro não é mais o caso, ou porque nunca quiseram ou porque sempre tiveram. Importa é a influência, a possibilidade de articular, de ajudar quem eles acham que precisa de auxílio – geralmente, gente crescida e com dinheiro para resolver os próprios problemas.

Os eleitores mais atentos percebem o que está acontecendo, chegam a mangar dos políticos, a debochar, a fazer as piadas mais infames. Enquanto isso, as excelências continuam se enganando. Vivem num mundo paralelo, a Poderlândia, em que é possível dizer o que não se acredita e de batalhar por algo que não é de interesse da maioria.

Alianças, conchavos e acordões são comuns na política. É ponto pacífico. Falta aos candidatos de 2018 mais malícia. Se tudo fosse colocado em pratos limpos logo de primeira, sem demora ou joguinhos previsíveis, sobraria mais tensão para o desenrolar dos próximo capítulos. É o segredo das novelas e séries. Ninguém guarda clímax, sob pena de levar a história em banho maria num eterno anticlímax. No final, sobra a decepção do público, que havia vislumbrado o ponto alto no começo e não teve nenhuma surpresa.

O jogo que os políticos estão fazendo agora parece muito com um mau roteiro: sabemos tudo desde o início, mas os atores continuam levando sem a mínima graça o pastelão para frente. De um olhar de relance, é possível perceber de primeira quem são os vilões, os mocinhos e os trapaceados – e, lógico, toda a sucessão de acontecimentos.

É preciso urgentemente um novo enredo para 2018. Do contrário, terá muita gente dormindo nas urnas.

A Júlia e o “Todo dia é dia de Natal”

Minha filha disse que quando crescer vai ter um restaurante com o nome “Todo dia é dia de Natal”. Será um sucesso. Clima ameno, conversas familiares, comida boa e aquela sensação de tudo o que poderia ter sido e foi, ou foi mais.

Júlia tem cinco anos e sonha em ser cozinheira — pelo menos esse é um dos sonhos. Gosta de meter a mão na massa mesmo, não tem frescura. Diferente de mim quando tinha a idade dela. Eu só via TV e comia biscoito. Ela quer fazer as histórias da tevê e os biscoitos. Diferente de mim, melhor do que eu.

Quando eu era criança e pensava no Natal, vinha à mente a imagem do meu avô vestido de Papai Noel — estava mais para Vovô Índio, mais pela descendência do que pela inclinação política. Eu achava muito engraçado, porque ele era desengonçado e sempre estava com uma ou duas doses de cachaça a mais na barriga, que era pequena ainda, bem menor que a do bom e sóbrio velhinho de hoje.

Lembro pouca coisa do Natal. Nunca me empolguei com datas festivas. Nenhuma. Diferente da Júlia, que comemora até corte de unha. Ela vê beleza onde existe beleza: em tudo. Tem um olhar endomingado permanente. Eu sempre fui cinzento e ranzinza. Ela é melhor do que eu.

Minha filha realmente acredita que todo dia seja dia de clima ameno, conversas familiares, comida boa e aquela sensação de tudo o que poderia ter sido e foi, ou foi mais. Isso não é uma característica só da Júlia. Milhares de pessoas são assim.

Tem gente que nasce assim e permanece assim. Tem gente que aprende a ser assim. Tem gente que não tem jeito. Meu caso.

Mas eu acho que as coisas estão mudando, talvez tenha sido a crise da idade que me abriu os olhos. Ou os olhos da minha filha que encontrei nos meus. Tenho estado menos cinza, mais endomingado.

Talvez seja sócio na empreitada “Todo dia é dia de Natal”. Júlia vai crescer. Acredito que ela é das pessoas que nasceram lindas e vão morrer lindas. Caso haja um acidente de percurso, há sempre alguma coisa que entra nos nossos olhos e nos muda o ponto de vista: um filho, um amor, uma crença, um negócio.

Só espero que as pessoas não deixem para ir ao restaurante da minha filha — já disse que vou ser sócio — apenas no final do ano. Aí não tem quem aguente, com ou sem crise.

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