Sete dias por semana sem medo da notícia!
Por menor que seja, a gente sabe da existência de coisas que mudam caminhos tomados
Porque bebês são umas fofuras e têm cheirinhos que só vêm ao mundo com o nascimento
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Um poema no Instagram é uma foto cheia de letras para ler em silêncio no celular
De um tempo muito, muito distante até hoje, ele continua o mesmo, mas seus seguidores
Tem coisa que não é assim, não
Passadopresentefuturo
Tudo depende do ponto de vista do poeta

Eu escrevia coisas pequenas e não as escrevo mais.

Agora, só as resgato. Sempre.

Este poema está no livro “Como um estalo”.

Coisa que a gente não vê, mas sabe que é assim
Que frase #32

Assisti ao fim de um grande amor. Tinha cheiro, gosto e cor. Impróprio para o consumo.

Que frase #25

Tragam todas as dores e coloquem aqui. E ali. Acolá também.

Que frase #20

O astrônomo descobriu um sol entre as pernas dela.

Respeito é tudo

Antes da bebedeira infernal, foi pedido um minuto de abstinência.

Axis mundi

O primo Arrimo, magro, longo e duro, é o sustentáculo da família. Deem-no um ponto de apoio e ele move o mundo. Deem-no um ponto de arroio e ele o lava. Primo Arrimo só não tem tempo de se proteger, mesmo se fazendo de teso, qualquer ventinho o deixa leso. Fica fraco e enverga. Arrimo morre de tristeza por não suportar mais o peso, já é quase arco. Quando a cabeça chegar ao chão a coluna se parte. Adeus mundo.

Porque foi aleatório

Ele só queria encontrar uma toalha e uma lona para se dar por vencido. O destino quis que aparecesse a faca e o queijo. Tinha intolerância à lactose. Deu piriri. Limpou o traseiro com urtiga. E se surgisse do nada uma toalha e uma lona? Talvez se borrasse de medo com essa fantasmagoria.

Econômico

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Reticência na vertical foi um jeito que pensei para dizer: hoje é dia de poesia.

 

Econômico

Contemplo a cena que passa
no momento do alinho
da coluna com a cabeça.
Risada veloz e rotunda.
Um carro muito limpo,
lustroso — um espelho mesmo —
não demora para dobrar
a esquina em que estou
em pose de contemplação.
Eu me vi e não estava
envergado: espichado
pelo próprio espanto.
Fico bem num carro do ano.

Arquitetura do sonho

Toda noite, acordava suado: era sapateiro e tinha que calçar um pé-direito de três metros.

… e …

O anúncio de compra-se vende-se teve procura recorde. A moça dos classificados digitou errado, foi aclamada pela crítica especializada, ganhou um extra e uma cadeira na academia de letras de sua cidade.

Preferia sim

Trocou o luto. Vestiu branco e saiu manchando-se em todas as esquinas.

O artista

O prefeito da cidade de Kandinsky era místico, geômetra e tinha uma caixa de giz de cera. A filha do prefeito da cidade de Kandinsky, chamada Babushka, por amor à cidade, mudou o nome para Kandinsky. A filha do prefeito da cidade de Kandinsky era mística, geômetra e tinha uma caixa de giz de cera. Ela tornou-se uma famosa pintora russa. O pai da pintora russa admirava os quadros da filha, que morrera prematuramente. Para matar a saudade, planejou um memorial sem nenhum quadro dela. Repintou todos para o memorial que viria a ser construído. Assinou Kandinsky.

mordeassopra

Mais um poema neste portal que é todo prosa.

A falta de fôlego é visível, mas o despreparo também é vencedor.

mordeassopra

a unha
em segredo
trai a boca
com o dedo

Excesso de curiosidade

Lombadas em série freiam o olhar na prateleira.

Hilária, o nome dela

No elevador, uma velhinha pergunta quantos vãos de escadas faltam para chegar em casa. Uma criancinha responde que se vão os dentes, mas ficam as palavras. Não era uma criancinha, era um homem velho com tiradas juvenis. Ao ouvir a resposta, a velhinha balbucia para si: “Palavras ao vento não me importam, que você morra ao chegar à sua porta”. Ela era bruxa. O homem morreu. A velhinha sempre fazia a mesma pergunta no elevador. Ela gostava de escutar piada ruim.

Rei na barriga

O sol se pôs no umbigo.

Dia de poesia

E nesta coluna, em que o leitor encontra mais prosa do que qualquer outra coisa, hoje é dia de poesia, é dia de poema.

Anos atrás, escrevia mais poesia do que prosa. Chego a lembrar do tempo em que escrevia poema full time — é a mais pura verdade, e eu não havia sido tragado pelo jornalismo.

Hoje é dia de lembrar o que fui.

ninguém viu 

trabalho
a plenos
pulmões
o que me
incomoda:
a abundância do ar lá fora

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